A primeira palavra-destaque de 2015: Islamofobia

A primeira palavra que eu aprendi em 2015 foi “islamofobia”. Não sabia que existia. Aprendi no dia 7 de janeiro, no meio das notícias sobre o atentado terrorista ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Foram mortas 12 pessoas e mais 5 foram gravemente feridas. Uma tragédia. A imagem de um policial francês, já abatido e caído no chão, recebendo um tiro na cabeça pelos terroristas chocou o mundo. Detalhe: o policial executado também era muçulmano. O assassino - ignorante -  não sabia. 

Daí por diante, uma onda de hashtags “#JeSuisCharlie” e “#JeNeSuisPasCharlie” - nesta ordem - tomou conta das redes sociais, onde o senso comum impera. Nada contra redes sociais. Nada contra o senso comum. Problema é que os dois juntos geralmente nivelam as ideias por baixo. Ignorâncias semelhantes a do fanático terrorista borbulharam na internet. Neste caso, manifestou-se mais o binarismo raso: ou você era Charlie (#JeSuisCharlie) e “apoiava” os insultos contra as religiões que o jornal veiculava ou você não era Charlie (#JeNeSuisPasCharlie) e “apoiava”o ato dos terroristas. Já pensou?! Fora disso, não existia possibilidade de aprofundar. As reações eram imediatas e apaixonadas, impedindo uma colocação com vírgulas a mais. Uma loucura.

As primeiras reações diante de tamanha tragédia foram de choque, claro. Mas desde o começo se mostrava o potencial simbólico do caso para superarmos o senso comum e a ignorância quando o assunto envolvesse o fenômeno religioso, objeto de estudo da disciplina de Ensino Religioso. 

É disso que tratamos aqui.

As manifestações públicas e publicadas contra a religião se intensificaram com a tragédia francesa. Não só contra o islamismo. O argumento principal dos críticos é de que pessoas religiosas tendem a ser intolerantes e a causarem fissuras na coesão social, em nome de suas verdades e doutrinas. Aqui temos que ser humildes o suficiente pra reconhecer: a ignorância religiosa de ateus é ruim, mas é menos danosa que a ignorância religiosa dos próprios crentes. O crente que ignora a natureza pacífica da experiência do Sagrado é muito mais perigoso que um ateu que não busca sentido nesse tipo de relação. Sem dúvidas. O problema é que condenar a religião ou discriminar fiéis não ajuda, pelo contrário, piora as possibilidades de resolução dos conflitos que surgem, especialmente quando envolvem fundamentalismos e fanatismos.

Neste sentido, o Brasil tem algo a ensinar ao mundo. Para além do argumento do sincretismo e da convivência secular entre diversas religiosidades, estamos na vanguarda do tratamento científico do fenômeno religioso. A maior parte dos países do mundo abriu mão do Ensino Religioso em seus currículos. No Brasil, ao contrário, optamos por inserir este traço tão marcante da humanidade - e de nossa cultura - em nossos parâmetros curriculares nacionais. Menosprezar o poder do fenômeno religioso e abrir mão de elaborá-lo cientificamente, em sala de aula, é um empecilho à resolução consistente de conflitos desta natureza. Só estudando e disseminando conhecimento sobre tal fenômeno conseguiremos minimizar os efeitos sociais do fundamentalismo e do fanatismo.

Se não fomentarmos um trato acadêmico a estas questões e criarmos um caminho diferente daquele, tão superficial, que apontam as redes sociais e o senso comum, estaremos perpetuando a ignorância, verdadeira causadora do terrorismo em nome de Deus.

Não demorará para que “budismofobia, “judaismofobia” ou “cristianismofobia” sejam acrescentadas ao nosso vocabulário. Em centenas de línguas e dialetos. 

Ou, pior, em bilhões de corações.

Na raça e na paz d'Ele,
J. Braga.

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