EU SOU MARISTA - Olimpíadas

Já ouviu falar das olimpíadas do Marista? A fama vai longe, se espalha. É um acontecimento. As olimpíadas são o auge do ano escolar. Mas vai muito além disso. E a cada ano percebo que essa olimpíada, na verdade, é um estágio profissionalizante. Engraçado? Não é.

Meninos de sexto ano ao ensino médio precisam se organizar, o que não é fácil. Eles escolhem o tema da turma, o design da camisa e do bandeirão, a apresentação para o dia da abertura, as equipes, os gritos de guerra, danças e coreografias.

Acha muito? É muito, sim. Mas tem mais. Com a ajuda de um professor representante, eles aprendem a negociar preços e prazos na confecção da camisa e do bandeirão. Administrar o dinheiro, buscar patrocínios. E gerenciar afetos e desafetos dentro do próprio grupo. Coisa de gente grande. Mas os pequenos dão conta, levam a sério e fazem bem bonito.

Claro que sempre há o sofrimento da perda da partida, de se perceber mais fraco que o adversário. Eles choram, a gente quase morre quando vê. Tem vontade de bater em quem faz falta em cima do filho da gente. E na vida não é assim também? A perda, o fracasso, a frustração fazem parte da vida, nos deixam mais fortes.

Vou falar aqui de algumas coisas que aprendi nas olimpíadas Maristas desse ano. Cenas inesquecíveis.

1- Vida e juiz nem sempre são justos

Você tem certeza de que está certo, que não merecia levar cartão. Nem falta teve. Você foi injustiçada. O outro te empurrou, deu cotovelada, te machucou e ainda levou a melhor? Pode reclamar, claro. Mas não vai adiantar muita coisa. Pode xingar o juiz, mas só vai piorar o seu problema e perder tempo e chance de enfrentar e virar o jogo.

Vida e juiz são assim mesmo. Eles têm uma visão própria, quase nunca a mesma que a sua. E nem sempre exatamente justa. Entube, siga o jogo. Faça o seu melhor. Outra saída não há.

2- Não chute cachorro morto.

Ganhou o jogo? Está feliz? Pois então respeite o outro time porque perder não é fácil.

3- Seja generoso.

Jogo de ensino médio. O time era ótimo. O outro perdia de lavada. Algo em torno de 20 X 2. O time adversário mal tocava na bola. De repente o time bom deu uma relaxada, nada grave. As mães, aflitas e sem entender, gritavam loucamente incentivando. O filho se aproximou para explicar:

- A partida está ganha. Para que humilhar? Deixa eles jogarem também.

Não é lindo?

4- Somos todos deficientes

Apesar da competitividade, todos são aceitos e jogam o que quiserem jogar. Com ou sem deficiência. E deficiência, vamos combinar, quem não tem as suas? Somos todos maravilhosos e deficientes. E maravilhosos com nossas deficiências. Não fosse isso, não precisaríamos do outro. Estaríamos fadados à solidão dos perfeitos.

5- Saia do seu umbigo. Torça pelos outros.

Você pode ficar em casa, jogando no computador, dormindo até tarde ao invés de ir torcer pela sua turma. Claro que pode, direito seu. Mas saiba que tudo tem seu preço. E você será cobrado. Porque time é grupo, é junto, é todo mundo se empenhando.

Dentro de campo tem um time que joga para que a sua turma ganhe. O mínimo que você pode fazer é torcer por ele. Não porque torcida vale pontos, vale. Mas mesmo que não valha. É pelo reconhecimento do esforço do outro. Pelo respeito ao colega.

E se cada um pensar que não é importante, ninguém faz nada. Você gosta que torçam por você? Então torça pelos outros.

6- Estamos todos em obras

Tem coisa mais dura que trabalhar em equipe? As diferenças, as deficiências de cada um determinando vitórias ou fracassos? Escutei esta frase de uma representante de turma, 13 anos.

- Não fale assim da minha turma. Entenda que a turma é fraca, sim. Mas está em um processo de mudança. Vem melhorando cada vez mais. Está melhor do que no ano passado. Ano que vem estará melhor ainda. É um processo, respeite.

7- Os pontos que a gente perde ou ganha

Minhas olimpíadas começaram uma semana antes. Para que a turma não perdesse pontos, minha filha assumiu levar uma das bandeiras na abertura. Fiquei de segunda a quinta sentada na arquibancada fria durante uma hora. Frio, chuva, cansaço, passamos por tudo.

- Vai mesmo ao ensaio?

- Claro! Tem que ir para não perder pontos.

Assim como ela, a grande maioria dos meninos Maristas. Muito mais do que ganhar ou perder pontos, sem perceber, eles aprendem que vida é esforço e empenho. Fez, tem. Não fez, perdeu. Esse é um grande ensinamento que as olimpíadas trazem.

8- Gosta muito? Come junto um quilo de sal.

Minha mãe falava essa frase cada vez que ouvia histórias de grandes amores.

- Gosta muito? Come junto um quilo de sal, depois me conta como foi.

Olimpíada é carnaval, festa, divertimento e quilo de sal. Na hora do aperto, da necessidade, quem está mesmo do teu lado? Tem diferença entre dizer que é amigo, abraçar, chamar de best friend e estar do lado. Acredite, não é nem de longe a mesma coisa. Nem precisa brigar, deixar de falar. Apenas saiba com quem está lidando para não contar e ficar na mão de novo.

9- Não basta ser gelol

Os adultos saem moídos só de torcer. Quando o time é fraco piora bastante o sofrimento. Depois tanto tambor nas ideias, você sai surdo, tonto, quase em transe. Demora para voltar ao normal. Aguente, faz parte. Não basta ser gelol, tem que participar. Filhos merecem.

Imagine um ginásio inteiro gritando:

- Ah, eu sou Marista! Ah, eu sou Marista!

É de arrepiar. É bonito. Mesmo que não seja, naquele momento, você se sente Marista também. Aliás, esse é exatamente o propósito dos Maristas: acolhimento. De todos, sempre.

Os meninos ficam quase internos, passam o dia inteiro na escola. E ainda querem torcer para os amigos de outra turma. Almoçam por lá mesmo. Quando você se oferece para buscar e levar de volta, para que eles descansem e desfrutem do conforto de casa, cama e comida, te olham com cara de:

- Como assim?

Eles se espalham pela escola. Estão em casa, não tenho dúvida. Mães sobram completamente nessas horas. E quer saber? Adoro. Tem que ser assim mesmo. Estão felizes, é o que me basta. O bom embate amadure.

Ganham, perdem. Choram. É de cortar o coração. Mas já saem pensando no que vão fazer para ganhar no ano que seguinte. Isso é vivência, é crescimento. Enfrentar a perda fazendo planos para lutar melhor, essa é a maior das batalhas. E quer saber do que mais?

- Ah, eu sou Marista!

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