Hoje é um dia simbólico no meio de um processo irreversível

Sabe aquela sensação de acordar ansioso no dia do início da Copa do Mundo no seu país?! Pois é. 

Poucas vezes na vida a gente acorda sabendo que se trata de um dia a ser lembrado por gerações, no mundo inteiro. E que vai marcar nossa memória afetiva por toda a vida.

Lembro-me menino de 9 anos, jogo Brasil x Argentina na Copa de 90. Na casa da vovó, família reunida, churrasco, cerveja, meninada correndo e, fissurada, brincando de bola. Jogo difícil. Maradona e Caniggia deram números e sentimentos finais para marcar minha geração. Menino, chorei. Copiosamente, chorei nos braços de meu pai e tios que, sem quererem me deixar ver, também lacrimejavam enquanto tentavam me consolar. Eu não sabia que seria um dia histórico. Aqui escrevo e percebo que foi. Mas eu não sabia que aquele dia seria assim. Não acordei pensando disso. Na verdade, apenas experimentei - pela primeira vez na vida - o que significava a força da expressão "dia histórico": aquele dia ou momento em que, pelo resto da vida, você lembrará exatamente onde estava, com quem e o que sentia diante de um acontecimento. 

Hoje eu sei que, independente do que acontecer em campo, sempre lembrarei do 12 de junho de 2014. O jogo das Seleções Brasileira e Croata tomará todas as atenções de meio planeta. Mas, nós, brasileiros, lembraremos por uma razão bem mais potente: o mundo está no Brasil ao mesmo tempo que somos um país se ressignificando, em busca de nova identidade, evitando ao máximo entrar num transe futebolistico que minimize essa busca, mas sem negar a paixão que corre em nossas veias verde-amarelas. Sim, é complexo. O Brasil não é para principiantes.

O futebol é um traço cultural determinante do Brasil. Antropólogos afirmam que aqui, mais que em qualquer outro país, o esporte bretão assumiu a função do "associativismo", isto é, em 8 milhões de Km quadrados, a língua portuguesa e o futebol garantiram a unidade nacional mais que qualquer colonização, governo ou guerra civil. Ante o mundo, por causa do futebol nos fazem reverência, assim como a Rússia pelo balé, ao Japão pelo judô ou ao EUA pelo basquete. Nenhum destes traços aliena seus povos, mas ao contrário, são símbolos de unidade, potenciais metáforas linguísticas que ajudam a popularizar sentidos de vidas nestas nações, especialmente em tempos difíceis. Quando não resguardamos quem somos, nossos traços essenciais, corremos risco de nos perdermos. E não é negando o futebol ou a Copa do Mundo que o brasileiro vai encontrar com um novo paradigma de país. Pelo contrário. Nos perderíamos num vazio terrível e sem graça.

Márvio dos Anjos, flamenguista e escritor, sintetiza e concordo: "O melhor legado desta Copa 2014 foi reunir tanta gente em torno de um debate de país. Talvez esta Copa tenha sido fundamental para o alvorecer de uma nação diferente, catalisando almas, frustrações e sonhos, mais do que obras, mais do que investimentos." 

Hoje é um dia simbólico no meio de um processo irreversível. E, mesmo sem sabermos como caminharemos daqui por diante, teremos certeza que, sim, o futebol e a Copa nos serviram de propulsores na busca de uma nova realidade. Tudo meio misturado, confuso, paradoxal, por isso bem brasileiro. Com suor, luta e fé em Deus, o fruto vai ser belo, como nós somos. 

Enfim, assim como o jogo das oitavas de final de 1990, lembro bem das finais de 1994 e 2002. Depois de hoje, meu sonho é lembrar, quando meu filho tiver a minha idade, de um país novo nascendo, de preferência com a memória detalhada da final de 2014, Brasil campeão, claro.

Minha sensação é de que há uma revolução em curso. Só que revolução não é episódio, é processo. Hoje o mundo começará a conhecer um novo Brasil, junto com a gente.

Vai ser impossível não chorar com o Hino.

Na raça e na paz Dele,
J. Braga.



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