Final de ano na sala da minha casa

Meu final de ano não foi muito planejado, arquitetado, calculado (tal, tal e tal), mas foi tudo tão bom! Mesmo que a imagem final (abaixo), que me sensibilizou pra esse texto, não pareça. 


Uma sala vazia, colchões encostados na parede, lençóis jogados em cima do sofá, penumbra da madrugada de um ano novo fresquinho. Na memória, lembranças de uma porção de momentos preciosos ali. Naquela sala. 

Desde agosto havíamos definido, minha mulher e eu, que não viajaríamos para Fortaleza, passar com familiares as festas de fim de ano. Entre outras razões, porque meus sogros, cunhados e agregados pensaram vir para nossa casa. Pra dizer a verdade, não planejamos muito. Apenas os locais onde cada um ia dormir – afinal, éramos 15 num apartamento de 2 quartos mais 2 toaletes –, preparamos um clipe com fotos das viradas de ano em família e demos uma reforçada nas compras da feira. Só. 

E foi um dos melhores finais de ano que já vivi. 

Gostei de muitas coisas. Da casa cheia de gente dormindo espalhada no chão até a absoluta falta de compromisso com os horários das refeições. Verdade que ninguém parava de comer, beber, rir, gargalhar e conversar (alto), em casa ou nos passeios. Sem pressão, a não ser naquelas horas de usar o banheiro. Também teve tarde que todo mundo dormiu bonito, enfadados do sol praieiro soteropolitano de verão. Ver meu filho completamente absorvido, pingando de suor, pelas brincadeiras com os primos que ele mal convivia, era alentador. Reconfortante. Quando criança e adolescente, vivi muito disso com meus tios, tias, primos e primas. Todo mundo morava espalhado Brasil afora e poder se encontrar anualmente no natal significava (e ainda significa) não desperdiçar um segundo de convivência. Menino, eu esquecia até de comer de tanta empolgação. 

Só que essa espécie de anarquia da rotina, misturada com o caos de muita gente pra espaços calculados, me fez sentir falta de alguns “ritos” e dar o passo que faltava praquela espontaneidade toda não se diluir em mero entretenimento. 

Sem muita presunção fui desenhando um roteiro da noite de natal, chamei as crianças pra ensaiar uma música. Pronto! A ficha foi caindo pra todo mundo e cada um foi sendo envolvido. Colocamos todo mundo pra participar, falar, ler. Fazer alguma coisa. De noite, chegaram mais amigos, o padre. Oração, louvores e preces. Sem falar da Ceia, claro! Enfim, foi bonito, foi singelo, foi família! 


Na véspera do Revellón, dia 30, decidimos fazer a cerimônia dos nossos propósitos para 2014. Relembramos os de 2013, rimos, ponderamos, refletimos e nos propusemos esclarecer: propósitos não são meros desejos, quereres voláteis. Propósito tem mais a ver com compromisso. Com aquilo que me tira da zona de conforto, me impulsiona, empurra e instiga. Até que eu consiga realizar. Acho que todo mundo entendeu. Na hora do brinde havia uma aura de que, sem perder um milímetro de alegria, o negócio era bem sério. Um pacto!


Dinâmicos, cada dia teve sua farra: de pizza, de churrasquinho, de feijoada, de coxinha e até de caldo-da-caridade. A TV também ajudou a animar as noites. Teve show do Roberto Carlos, final do The Voice Brasil, Anderson Silva quebrando a perna...bem, essa parte, pula. Revellón, na casa de praia de uma família amiga. Mais gente, mais comida, mais bebida e mais confraternização. Ufa! 


Até que... 

Até que vi a casa vazia, João Pedro sem primos pra brincar. Isso me deu um nó na garganta. Um aperto no peito. Parei. Fui ver as fotos. Pouco a pouco, um sorriso.

Naquela sala eu entendi como a vida é feita de encontros e despedidas.

Na raça e na paz Dele,
J. Braga.

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