Todos os golpes se parecem - Paulo Moreira Leite

Uma lenda piedosa sobre golpes militares diz assim: “todo mundo sabe como as rupturas começam mas não se sabe como terminam.”

Bobagem. Na América Latina, os golpes são produto da incapacidades das forças políticas conservadoras, que controlam o poder econômico e o aparelho de Estado, para oferecer respostas consistentes para a desigualdade e falta de perspectiva da maioria da população.

Incapazes de conservar o poder pelo voto, defendem suas prioridades aplicando políticas de força.

Consumada a deposição de um governo constitucional, procura-se apresentar o golpe como salvação da democracia e uma vitória contra a demagogia, a irresponsabilidade e o populismo. Alega-se que o antigo governo caiu por sua própria incompetência e não porque haviam forças dispostas a arrancá-lo do Palácio de qualquer maneira.

Com o passar do tempo, verifica-se que os compromissos democráticos eram, isso sim, pura demagogia. As ditaduras se consolidam e, com elas, vêm medidas de regressão social e o reforço dos velhos esquemas de poder.

Nos anos 60, a Casa Branca exigia que os golpes tivessem essa fachada – uma defesa da democracia – como condição para apoiá-los. Foi isso o que John Kennedy explicou a Lincoln Gordon quando o embaixador americano foi a Washington pedir apoio à conspiração que derrubou Goulart. Essa conversa ocorreu em 1962. Goulart foi derrubado em 1964. Os EUA colocaram até armas e navios a disposição dos golpistas. Mas sempre diziam que estavam agindo em nome da “democracia.”
Os golpistas nunca assumiram que haviam derrubado Goulart. Disseram que a presidência ficou vaga depois que Jango deixou o país e por isso o Congresso escolheu um presidente interino, antes que os militares resolvessem quem iria formar o novo governo.

Pela versão oficial, querem nos fazer acreditar que foram obrigados a ocupar o governo por culpa de um presidente que deixou seu posto. Na verdade, os militares queriam simplesmente impedir a posse de Goulart já em 1961, após a renúncia de Jango. Só não puderam levar o plano adiante em função da resistência popular, liderada por Leonel Brizola.

O golpe paraguaio mostra a execução de um esquema semelhante ao de 64.

Garantiu-se o respeito formal à lei – mas as regras constitucionais foram usadas de forma pervertida. É como um criminoso que invade uma resistência, elimina a família inteira e depois chama os comparsas para testemunhar que agiu em legitima defesa.

Não se fez uma denúncia clara e comprovada contra o presidente. Ele também não teve direito de defesa. As regras para o julgamento do presidente foram definidas pelos mesmos políticos que iriam julgá-lo, apenas 24 horas antes da decisão. Os deputados que apresentaram cinco acusações contra Lugo se consideram dispensados de apresentar provas porque eram “fatos notórios e sabidos”, argumento típico de linchamentos.

Lugo foi derrubado em 2012 mas a operação para retirá-lo do posto já estava em andamento desde 2009, apenas um ano depois da primeira vitória eleitoral de um adversário das oligarquias que governam o país.

Incluiu até uma campanha para desmoralizar o presidente a partir de sua vida pessoal, com denúncias irresponsáveis sobre casos de paternidade – alguns jamais comprovados — mas de utilidade inquestionável num país de eleitorado católico, liderado por uma das igrejas mais reacionárias do planeta. Essas denúncias ajudaram a ampliar o afastamento da Igreja paraguaia em relação a um bispo que questionava os vínculos conservadores da hierarquia católica no país.

Também explicam por que o Vaticano de Bento XVI, em fase de conservadorismo de estilo feudal, tenha se tornado o primeiro estado independente a reconhecer o novo governo.

Documento interno da embaixada americana diz textualmente que a conspiração apenas aguardava pela primeira oportunidade para derrubar o presidente eleito, dá nomes dos principais envolvidos e aponta o vice, Frederico Franco – agora empossado na presidência — como o principal beneficiário.

Revelado pelo Wikileaks, o documento coloca uma questão constrangedora para o Departamento de Estado americano. Informado de que havia uma conspiração para derrubar um presidente eleito, de legitimidade inegável, qual a reação do governo americano? Alertou Lugo? Fechou os olhos e fingiu que nada acontecia? Ou deu o sinal verde “desde que se respeitasse a democracia…”?

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