Escrevendo até os ossos

“What writing practice, like Zen practice does is bring you back to the natural state of mind…The mind is raw, full of energy, alive and hungry. It does not think in the way we were brought up to think-well-mannered, congenial.”
Natalie Goldberg

(O que a prática da escrita faz, assim como a prática do Zen, é trazer você de volta ao estado natural da mente… A mente é crua, cheia de energia, viva e faminta. Ela não pensa da maneira que fomos criados para pensar – bem comportados, amigáveis.)


Que papel a escrita (ou o desejo de escrever) tem na sua vida? Muita gente adora ler e aí, naturalmente, começa a querer ser como aqueles e aquelas que tanto admira. Sonha escrever para ser lido, publicado, admirado. No fundo, deseja antes ser escritor ou escritora do que… escrever!

Considero fundamental esse discernimento: se o que você busca é sucesso e fama, é provável que o caminho da escrita seja uma péssima ideia. Não por achar errado escrever para tentar ganhar algum dinheiro com isso ou ficar famoso, mas por achar pouco provável, de um ponto de vista racional e objetivo – e bastante sofrido.

Natalie Goldberg ficou famosa com a publicação, em 1986, do best-seller “Writing Down the Bones”, traduzido para o português como “Escrevendo com a Alma”. O título original – algo como ‘escrevendo até os ossos’ (de difícil tradução) – é bem melhor. A escritora americana foi uma das pioneiras em livros sobre o processo de escrita.

Aproveito para recomendar esse livro, que achei beeem bacana.

A postura que apresenta ali é diametralmente oposta à atitude de escrever para os holofotes. Além de professora de escrita criativa, a escritora é praticante de longa data do budismo Zen. A uma certa altura do campeonato, dirigiu-se a seu mestre reclamando que não conseguia se concentrar direito na meditação e estava cheia de conflitos. Em contrapartida, afirmava adorar escrever – e foi supreendida pelo velhinho: escrever é a sua prática (espiritual)! Foi um grande alívio.

Desde então, estabeleceu e desenvolveu esta sua proposta: a escrita usada fundamentalmente como caminho de auto-descoberta. Assim como na prática formal do Zen, trata-se de um caminho árduo de contato com o fundo sem fundo de onde brotam sentidos selvagens, sem garantias, em meio ao qual cada um, desde que entregue ‘de alma’ ou ‘até os ossos’, tem a oportunidade de desenvolver disciplina, confiança e sobretudo generosidade com tudo em nós que simplesmente É, a despeito do que pensamos a respeito.
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André

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