O problema do Brasil é de caráter!

Brasileiros Pocotó 
Luciano Pires

Ao atualizar meu livro Brasileiros Pocotó para ebook, constatei como o Brasil é hoje um país diferente do que eu conheci até 2003. Refletindo sobre as forças que provocaram as mudanças, concluí que algumas foram fundamentais. Quero compartilhar com você, esperando ler suas considerações a respeito:

- a globalização. Um jogo pesado no qual entramos de forma atabalhoada, sem saber direito o que nos esperava. Aprendemos que não existe mais espaço para o “nas coxas”, a dependência exclusiva da sorte e o jeitinho brasileiro que, se ajuda a sair dos apertos, é responsável por nos colocar em situações complicadas;

- a economia mundial. Em 10 anos a China mudou o equilíbrio de forças ao mesmo tempo em que crises globais quebraram a confiança em determinados modelos de administração até então consolidados, criando uma realidade muito diferente daquela de 2003;

- mudança de gerações na iniciativa privada. Os velhinhos foram sendo substituídos pelos executivos mais moços, formados numa realidade muito diferente. Mais ambiciosos, mais flexíveis em relação a certos valores morais e mais apressados;

- a mudança de gerações na sociedade. Transferência de poder dos pais para os filhos, os marqueteiros focando na juventude, consumo exacerbado, conectividade e pressa, pressa, pressa;

- a internet. Foi ela que colocou em nossos colos o mundo, chegando a ser considerada a responsável pela deflagração de algumas revoluções que estão mudando a cara do planeta. Considero isso um exagero, mas é difícil imaginar a vida em sociedade, sem ela;
- a tecnologia, colocando em nossas vidas os smartphones, os tablets, os computadores e mudando a forma como interagimos com nossos semelhantes e com o mundo;

- e finalmente, especialmente no Brasil, 10 anos de administração petista, com a exacerbação das opiniões ideológicas, as tentativas de implementação de uma agenda dita progressista, a maldição da “governabilidade”, tudo sustentado por um presidente cujo maior mérito é ser um grande comunicador.

É claro que outros fatos aconteceram em dez anos, mas só os que listei já dão para concluir: vivemos em outro país, em outro mundo, muito diferente daquele de dez anos atrás. E não acho que estejamos melhores ou piores do que antes. Estamos diferentes.

Uma coisa, no entanto, me assusta, e aí sim existe o perigo da piora: a velocidade com que a “ética dos resultados” de Maquiavel, tomou conta de nossa sociedade. Na verdade ela sempre esteve por aí, mas hoje parece senso comum que toda (eu escrevi “toda”) ética é relativa, depende do momento e do ambiente onde as coisas acontecem. As leis são flexíveis, interpretadas, contornadas ou até mesmo ignoradas, desde que não doa muito.

A impressão é que neste novo Brasil, todos tem a consciência do que é certo e do que é errado, mas perdemos a capacidade de refletir, analisar, julgar, fazer as escolhas pelo bem e, principalmente, agir.

O que une a consciência do certo e errado com a capacidade de análise e ação é uma coisa chamada caráter.

Dez anos depois, é dele que mais sinto falta.

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