O humor nos tempos de cólera - Tutty Vasques
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| Tá russo fazer humor |
Humor a favor é assim mesmo: nem quando é bem-feito funciona. Ou o ilustrador Barry Blitt não teria passado a semana esclarecendo que sua charge para a capa da revista The New Yorker não era contra - muito pelo contrário - o candidato democrata Barack Obama. Não há derrota pior para um humorista do que explicar a piada que fez: "A idéia de rotular Obama como antipatriótico e terrorista é absurda. Achei que, ao retratá-la, mostraria o quão ridículo são esses boatos". Entendeu agora? Mal comparando, seria como se, para satirizar os clichês habituais de preconceito com Fernando Gabeira, a revista Piauí produzisse um desenho de capa com o candidato a prefeito do Rio vestido de tanga, sentado no colo de um negão, fumando um baseado, diante de um pôster de Che Guevara, símbolo de sua origem de militância no MR-8. Imagina a decepção do capista ao ver o povo nas bancas apontando praquela bichona maconheira com pedigree de guerrilheiro. É de lascar!
Os humoristas americanos aproveitaram a deixa da indignação federal com o mal-entendido da New Yorker para reclamar que não está fácil fazer piada com Barack Obama. Alegam que não há brincadeira com o candidato democrata que não adquira conotação racista. Maior que esse receio, porém, é a saia-justa de gozar o candidato de nove entre dez eleitores inteligentes, time no qual, modéstia à parte, os humoristas americanos - como de resto em todo mundo - se incluem. Ziraldo quase foi à bancarrota no Brasil ao recriar um Pasquim de apoio ao primeiro governo Lula. Chegou uma hora em que "ficou desconfortável fazer humor pró-governo", reconheceu o cartunista tempos depois numa roda literária de Paraty. Humor é sempre contra. Está na Declaração Universal dos Direitos do Homem: "Tudo e todos são igualmente ridículos perante o humorista, não importa a cor, a idade, a religião, o sexo ou a quantidade de dedos" - daí a graça da coisa!
Mas esse é um problema dos humoristas, eles que se virem. Muito mais grave na polêmica em torno da última capa da New Yorker são os sinais de falência do humor inteligente em todo o mundo. Claro que os leitores da Piauí americana, tal qual os da matriz brasileira, entenderam e acharam o máximo a piada do casal Obama travestido de terroristas mulçumanos na intimidade do Salão Oval. São os famosos formadores de opinião, cada vez mais fora de moda e desimportantes na banda larga da comunicação de massa. Hoje em dia, como se sabe, cada um entende o que bem quiser, sem compromisso com opinião formada sobre nada. Se precisar pensar um pouquinho para achar graça, francamente, a galera tá fora! O gênero "zorra total" de fazer rir triunfa em todo o mundo.
Pior de tudo é a turma - e nela se inclui o próprio Barack Obama - que entendeu de cara a piada da capa da New Yorker, mas, ainda assim, a censura porque, tá na cara, não será nunca captada pela maioria estúpida da humanidade. Recomenda-se, pois, dosar a inteligência da criação humorística para se fazer compreender por qualquer Homer Simpson, a mais completa tradução do QI médio do eleitorado americano. Pronto: taí um ótimo motivo para se começar a fazer piadas com o candidato democrata.
Fonte: O Estado de S.Paulo - 29/julho/2008


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