Com que intenção? - Alfredo Roberto Marins Júnior

“Não é a intenção que valida um ato, mas seu resultado.”
Nicolau Maquiavel

Já deve ter ficado evidente através dos meus artigos, que sou num grau moderado, um nerd. Não um daqueles que se vestem de elfo nos lançamentos de filmes como o Senhor dos Anéis, ou que passam horas em jogos online. 

Sou um pouco mais prático, mas coleciono quadrinhos, crio gráficos para registrar o progresso de qualquer atividade que realizo, gosto de exercícios mnemônico e lógicos, aprendi a ler aos quatro anos, escrever aos cinco e do ensino fundamental à faculdade, minha nota mais baixa foi 7,5.

Mas por favor, não me interpretem mal. Não estou fazendo propaganda de mim mesmo, nem apologia ou crítica a nada. Só compartilho uma experiência particular, porque se por um lado tenho boa habilidade para números, por outro tenho dificuldades com habilidades sociais, travo em conversas e sou ruim em me expressar verbalmente. Sempre fui daqueles que todos queriam nos trabalhos em grupo e de quem todos fugiam nas aulas de educação física. Sem falar no bullying, que na época nem tinha este nome.

O fato, é que a mais baixa das minhas notas, veio de uma prova de literatura na qual a professora fez aquela pergunta clássica sobre o que o autor quis dizer quando escreveu tal verso, a qual eu, numa combinação de arrogância adolescente e prepotência de quem acha saber tudo, respondi maldosamente: "pergunte a ele."

Hoje, olhando a situação à distancia, com muito menos hormônios e mais paciência, compreendo que minha atitude foi grosseira, mas a pergunta também foi inábil. Perguntar o que um autor quis dizer num fragmento de poema descontextualizado, sem informação da época nem dados que esclareçam algo, a um adolescente com outras preocupações, é suicídio.
Sem contar com o fato de que o próprio autor pode não saber o que quis dizer ao escrever o que escreveu. Quantas vezes começamos a escrever algo, que de repente toma outra forma, muda de rumo? Quantas vezes ao recorrer à escrita, ecoam em nossas mentes outras vozes, outras frases que já lemos de autores que admiramos e que influenciam a escolha de palavras, a construção do estilo.

E ao longo do tempo, o texto só se complica. Quantas vezes passamos por exercícios de “leitura e interpretação do texto?” Para mim não há separação. Toda leitura é uma interpretação.

E se o autor escreve a partir de suas próprias experiências, sua vivência e da influência que recebeu de outros autores, também o leitor interpreta o texto baseando-se em suas próprias experiências, identifica-se com o estilo, com a situação específica, com uma frase ou uma ideia e tem a impressão de que aquele texto foi escrito para ele.

É claro que sempre há uma intenção do autor, o desejo de dizer alguma coisa, que às vezes nem ele mesmo sabe o que quer dizer, mas citando Roland Barthes (1915-1980) no livro O Rumor da Língua: “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”

O autor acaba por promover sua própria morte quando a escrita começa, pois no momento o texto sai de suas mãos, está aberto a uma infinidade de outras interpretações, que dificilmente estão alinhadas com a intenção do autor.

Atualmente, menos adolescente e mais tranquilo, observo certos mitos e não caio na tentação de perguntar-lhe o que o autor quis dizer ao escrevê-los. Mais ao estilo Drummond, tento conviver com estes mitos antes de repeti-los, tenho paciência e calma, para adentrar surdamente em reinos distantes no tempo e no espaço.

Não pergunto qual foi a intenção do criador do mito nórdico do bipolar Loki, que passava metade do seu tempo corrigindo os problemas que criara na outra metade. Só tento assimilar que também nós somos hora criadores, horas solucionadores de problemas.

Igualmente observo o mito de Osíris, o mais cultuado dos deuses egípcios, governante das terras do Egito, educador dos homens nas técnicas da agricultura e domesticação de animais, que teve um fim trágico e tornou-se o deus dos mortos.

Qual a intenção do criador deste mito? Explicar que coisas ruins acontecem à pessoas boas? Dizer que no fim tudo dará certo? Sinceramente não sei.

Mas aprendi, naquela prova, que não é saudável ter a intenção de ser rude com quem te avalia.

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