Quando ano novo é sinal de vida nova? - Mario Sérgio Cortella

Mais um ano se encerra. Época em que as pessoas fazem uma pausa para pensar, refletir e avaliar a vida. Mais que o fechamento de um ano, 2010 encerra uma década, a primeira do século 21. Na história da humanidade, todas as sociedades, sem distinção, registram o tempo para marcar ciclos, o que parece dar mais sentido à vida. Mas, deixando a simbologia de lado, será que somos capazes de saber para onde caminhamos? Quais são, de fato, as expectativas da sociedade contemporânea para o futuro? Será que ano novo é sinal de vida nova?



“A sociedade contemporânea tem pela frente um cenário de escolha, pois o atual modelo tem nos conduzido, em várias situações, a um impasse muito sério, na medida em que desenvolvemos uma capacidade de intervenção no mundo, de poder sobre a natureza e de tecnologia que é inédita na história. Ao mesmo tempo, essa capacidade retirou em grande medida a referência da nossa vida e da vida alheia”.

A afirmação é do professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da pós-graduação da PUC São Paulo, e professor convidado da Fundação Dom Cabral (BH), Mário Sérgio Cortella, para quem a sociedade contemporânea está chegando ao esgotamento de um modelo que é em grande medida, biocida. (…)

Partindo desta premissa, Mário Sérgio Cortella acredita que, além da retomada de alguns valores, é preciso, mais do que nunca, reinventá-los. As opções devem ser de natureza ética e estética, ou seja, de uma vida que seja boa e bela.

“Toda escolha precisa, sem dúvida, ser inspirada talvez pelo mais avançado projeto de vida coletiva” - proposta, conforme lembra, registrada há pelo menos dois mil anos pelos cristãos no Evangelho de João (10, 10) quando Jesus disse: quero que tenhais vida e vida em abundância. (…)

No ensinamento de Jesus, segundo Cortella, a expressão mais importante não é “vida em abundancia” e sim “quero que tenhais”. O filosofo enfatiza: “Jesus não disse quero que você tenha, porque se todos não tiverem em abundância, não há abundância e sim privilégio”.

O filósofo acredita que essa característica não é apenas de uma geração, como pode parecer. É um problema de um tempo, no qual várias gerações coexistem, e alerta: “o mundo que vamos deixar para os nossos filhos depende muito dos filhos que vamos deixar para esse mundo, pois eles não nasceram prontos. Se a eles falta religião - constata - não é essa a questão, pois eles foram criados por pessoas em um momento de intensa prática religiosa, pelo menos formal. Ela é muito mais resultado da distração, do descaso e muitas vezes da negligência em relação àquilo que é a convivência de gerações. De repente as pessoas ficaram o tempo todo se dedicando ao urgente e deixaram o importante de lado”.

Para o filósofo, sonhar também faz parte do processo de mudanças e de retomada dos valores. Em sua reflexão, Cortella aponta a passagem de ano como possibilidade de renovação, mesmo que muitas pessoas não consigam colocar em prática os planos e ideias prometidos no final de cada período. 

“O sonho é sempre maior do que o realizável. Se nós nos limitássemos a sonhar aquilo que é imediatamente possível não seria sonho, seria um mero projeto”.

Ele pondera, entretanto, que há diferença entre sonho e delírio, um é desejar aquilo que não é, mas pode vir a ser; e o outro é querer o impossível. “A gente sempre cria sonhos que são maiores eventualmente do que a possibilidade de realização. Depois vamos aparando, lapidando pouco a pouco até que se chegue à nossa condição. Somos seres de sonhos e, portanto, somos sim capazes, por exemplo, como aconteceu com os cristãos há dois mil anos, e acontece ainda hoje, de desejar uma humanidade fraterna”.

Henrique Ulhoa, Jornal de Opinião, Edição 1124 - 27 de dezembro de 2010 a 02 de janeiro de 2011
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Grifo nosso.

Na raça e na paz Dele, 
J. Braga.

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