Lava-Jato se fundamenta na ética de aparências arraigada em parte da população brasileira - Fabio Metzger

A operação LavaJato é baseada em uma ética profundamente arraigada em parte da população brasileira, que é a ideia de inquirir e humilhar inimigos, com a justificativa de se limpar o país da corrupção. Há uma ampla adesão, por parte da população, às decisões e ações do grupo que compõem a operação, a um ponto que ela começa a se tornar um "patrimônio". Com a roupagem de uma operação judicial, com ampla cobertura midiática, no fim, trata-se de uma ética das aparências. Pois a moralidade é seletiva. Não está baseada em pensar em uma sociedade mais solidária, transparente e justa. Ao contrário, essa moralidade vai por um individualismo mesquinho, onde o genérico "roubou, tem que pagar" é levado às últimas consequências, sem que se considere os requisitos mínimos para a preservação de um Estado de Direito sob segurança jurídica.

Então, se nas aparências, a ética que construiu a LavaJato empolga a opinião pública, em sua essência, a moral dos agentes da operação é a total arbitrariedade, a proteção dos amigos, a perseguição a inimigos, decisões que aparentam "limpar" a política mas, de fato, promove uma grande desagregação social. Creio que aí, o que tivemos foi a agenda da substituição de uma classe política inteira por outra, sem um programa de defesa da Economia, das instituições, das políticas públicas.

Essa agenda não gerou a conscientização de uma sociedade, não a tornou mais justa, tampouco transparente ou solidária. Ao invés, gerou descrédito geral na classe política, contribuiu para agravar uma crise econômica. E propiciou, dentro da Anomia resultante, um vácuo de poder, ocupado por um exaltador da tortura, racista, homofóbico, misógino e genocida. Pensando na questão ética, dentro de nosso país, LavaJato tem um quê do "levar vantagem", mas com a fachada da Justiça e do MP, dando um revestimento de aparente seriedade.

Moralmente, isso se volta contra parte importante dos brasileiros, incluídos aqueles que a apoiaram. O "levar vantagem" é um traço ético, que está disseminado na cultura brasileira, e sendo a classe política, componente central do país, o "jeitinho" ganha centralidade. Mas, uma vez, extirpado o "inimigo", entra em seu lugar, não mais políticos profissionais, mas "profissionais da violência", que se fazem valer de seu poder, para promover a destruição das instituições. O "levar jeito" sobe a um patamar ainda mais perigoso, porque já não se baseia mais na falta de transparência do erário público, mas sim em algo muito pior: o direito de matar, e decidindo o direito de quem está vivo ou não; ou o direito sobre o que pode ser dito e o que é censurado ("Fora Bolsonaro", por exemplo, não pode ser entoado em alguns ambientes). No limite, a questão do uso não transparente do erário público também se desacredita ainda mais.

A ação de Bolsonaro e seus aliados para salvar a pele de seu filho Flávio, é talvez hoje um dos mais gritantes descalabros da república. É a imoralidade que perdeu a vergonha de dizer a que veio, a perda de um verniz mínimo de coexistência, e os resultados mais profundos do que vivemos hoje.

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